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Tens direito a ser inteligente, nos dias de hoje?

by Jaqueline
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Quando tinha 16 anos passei pela “idade do armário”. Era o nome que se dava à fase da adolescência. Aquela idade era a passagem entre ser criança e tonar-se um adulto. Essencialmente era passar de brincar com bonecas, não ter responsabilidades a estar constantemente num dilema entre o que é suposto ser e o somos realmente.

A minha “idade do armário” como os meus pais sempre lhe chamaram incluiu tudo a que tinha direito. Aprendi a travar o meu primeiro cigarro, bebi alguns shots de coisas que ainda hoje só de pensar nos nomes me fazem arrepiar a alma, estando o Golden Strike no primeiro lugar do pódio. Esta palavra trás-me à mente uma imagem tão real que ainda consigo ouvir os gritos de histerismo em que dizíamos que estávamos a beber ouro.

Todas as actividades depois das aulas implicavam sempre algo que não deveria estar a fazer. Os meus pais sabiam ou acabavam por descobrir mas não faziam ideia que as actividades durante as aulas também implicavam baldas, muitas…atenção, pouca.

Isto, resumidamente, quer dizer que eu e a escola éramos as melhores amigas fora da sala de aula. Estudar nunca foi o meu forte e nunca tive muita paciência para tudo o que implicava chapa cinco. Adorava a professora de português, a Moedas ensinava Fernando Pessoa como ninguém, ao ponto de estar obcecada pelas heterónimos.
Se não gostava de estudar como é que estou a fazer um doutoramento hoje e persigo constantemente a educação e a aprendizagem como formas de liberdade? Porque é que acredito que ser intelectual não é assim tão mau?

Talvez seja importante a definição. E neste caso nada melhor que olhar para um dicionário. A palavra intelectual implica dois conceitos: espiritual e inteligência. Esta segunda, por sua vez implica
memória, imaginação, juízo, raciocínio, abstracção e concepção. Pomos os intelectuais numa caixa com conotação negativa, ninguém gosta de ser chamado o marrão, quando anda na escola e mais tarde também ninguém quer ser conotado como snob porque tem a mania que sabe.

É por isso que o filme Idiocracy é hoje tão importante, primeiro porque foi filmado em 2006.
Depois, porque retrata de uma forma demasiado real o caminho que parece que estamos a tomar mais rapidamente do que nos estamos a aperceber. Em jeito de resumo, a personagem entra numa cápsula de congelação para acordar um ano depois. Dado a alguns problemas técnicos acorda cerca de 500 anos depois num Mundo onde as pessoas só se vestem com roupas estampadas com marcas, só bebem bebidas com açúcar e a sociedade vive num estado de estupidez total para a personagem principal. É difícil de explicar porque para quem vê o filme não faz sentido nenhum. No entanto em 2018 face à realidade com a qual nos defrontamos, talvez estejamos a caminhar para essa realidade mais rapidamente do que pensamos.

Porque é que ser intelectual é, então, assim tão mau? Porque é que ter a capacidade de raciocinar e pensar sobre os temas deixou de ser uma prioridade? A nossa capacidade de abstração individual deixou de contribuir para o colectivo? O colectivo vive agarrado aos pequenos ecrãs onde tudo o que é instantâneo e sem conteúdo porque é fácil é melhor?

Vivemos numa era em que a rapidez e o facilitismo são primordiais. Sou fã da tecnologia, gosto do acesso, da facilidade e da parte de entretenimento.

Mas sei hoje, que a cultura, a capacidade de raciocinar e pensar sobre as coisas, a educação e a arte são fundamentais para a minha liberdade individual.

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